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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

seletivo

Combino com Edu e Rodrigo de me pegarem após uma reunião para passearmos juntos. Somos convidados a comer pizza com a turma reunida, então pergunto:
- Rô, quer ir comer pizza? Você pode conhecer o pessoal!
Me olha, suspirando:
- não. Gosto de conhecer apenas pessoas de até 13 anos.
Sério mesmo, gente: de onde é que ele tira essas frases?!

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

racionalidade prática

Rodrigo, fazendo lição. Era para entrevistar um familiar e depois escrever sua biografia.
Meio da tarde, ele começa a fazer a entrevista comigo. Dispersa, tem preguiça... Olho no caderno e só chegou no "Fabiana nasceu em 1977". Precisando voltar ao trabalho, digo para ele deixar a lição para mais tarde, entrevistando o pai ou a irmã. O menino se ilumina:
- tá bom... vou entrevistar a Julia.
- isso, filho. Ou o papai.
- não, a Julia: ela é mais nova, então tem menos coisa pra contar.
 Pragmatismo, a gente vê por aqui :-)

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Rodrigo, modo crítico social



Fez nove anos ontem. Um metro e trinta e três. Vinte e seis quilos. Está enorme e não acredito mais que tenha saído de dentro de mim: nem ele, nem o amor que sinto por ele cabem no meu corpo.
E ainda por cima é inteligente! Dá-se o caso que a gente compra leite fresco, em garrafinhas, que pegamos na geladeira. A gôndola é limitada - umas tantas garrafas de cada marca; uma ou outra embalagem em saquinho. E o leite ainda divide espaço com sucos de laranja.
Pois. No sábado, no supermercado, pela primeira vez Rodrigo passou pelo corredor de leite longa-vida. Ficou cho-ca-do: "como é que pode tanto leite?! quantas vacas precisa pra dar tudo isso de leite?! gente... elas devem ficar magriiiinhas...".
Aos nove anos, compreensão da lógica industrial em relação ao tratamento da vida: alcançado.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

sansão às avessas

ainda que você resista à ideia, hoje finalmente consigo te convencer a ir cortar o cabelo. e sempre me assusto ao redescobrir o desconhecido que você é para mim ao mesmo tempo em que relembro os pedaços meus e do seu pai que você carrega: as sobrancelhas do seu pai, os meus olhões ainda mais enormes na ausência da franja comprida... e também as feições de menino, cada dia mais longe do bebê e da criança que me pareciam mais próximos, mais meus. você pela casa, após o banho para se livrar dos restinhos do corte - praticamente uma nova pessoa.
levo você a cortar o cabelo, mas quem fica frágil e vulnerável sou eu: mãe um pouco boba, assustada como se você não houvesse crescido cada dia um pouquinho. surpresa como se você virasse gigante depois de uma porção de cogumelos mágicos. o coração derretendo no calor de te rever com o mesmo amor e curiosidade quando logo depois do seu nascimento.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

tecnológico

Resolvo pendurar a roupa, deixando o computador ligado e a página do gmail, onde tinha acabado de me despedir da minha mãe, aberta.
Quando vejo, um serzinho intrometido tinha tentado recomeçar a conversa:

11:45eu: oi você tá boa?
  eo rodrigo
11:46 aonde ce ta
11:50 por que vocé não responde
11:52 tchau

 Eu mereço!!!

segunda-feira, 30 de julho de 2012

maquinando

No meio das férias, num dos dias em que Rodrigo teve que ir comigo para o trabalho, a gente já tinha tido uma prévia de como a cabecinha dele andava funcionando. Depois de ir comigo a um almoço que era mezzo reencontro com uma amiga, mezzo trabalho (e apesar de ter ganho sorvete, bombom e um mini-macaron), Rodrigo estava bravo comigo. Chegamos em casa, eu tinha que trabalhar em alguma coisa e, quando saí do escritório encontrei um bilhete pendurado na porta:

- Reunião chata + um dia sem TV = R$5,00. Deixe o dinheiro aqui. .

"Aqui" era seguido de uma seta apontando para o envelope onde eu deveria deixar o "pagamento".

Apesar de não ter sido reembolsado pelos transtornos provocados pelo julho conturbado, Rodrigo não desistiu da estratégia.

Ontem, em pleno piquenique, minha memória falhou de novo e esqueci o nome do jogo de raquetes e bola  leve ou peteca que levamos para brincar. Tentava lembrar para contar para a Adriana e só pensava em frescobol. Rodrigo, atento à minha inquietação, disse baixinho: "eu sei como o jogo chama".

- É, filho, então me conta.
- não. Só se você fizer uma assinatura do Club Penguin!
- o quê? Não acredito! Não senhor... não vou assinar coisa nenhuma.
- então não te conto.

Dali a uns minutos, capitulou:
- o jogo é badminton, mãe.
- puxa, filho! Obrigada...
- ... mãe: agora você vai fazer a assinatura?

Póinhóinhóim! Eu mereço, viu? Ô cabecinha que não pára de maquinar...

sexta-feira, 15 de junho de 2012

constatação

Trabalhando (ou tentando), escuto ao longe a gargalhada do Rodrigo - assistindo um desenho ou lendo um gibi da Mônica.
E a gargalhada dele tem uma ponta afiada que estoura pluft a bolha fina do meu coração de mãe.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

extensão

Rodrigo perguntadeiro, tateando o mundo:
- mãe, quantas horas tem a noite?
- como assim, Rô?
- se o dia tem 24 horas, quantas horas tem a noite? 24 também?
Olha, bem que eu queria uma unidade dia-noite de 48 horas, só para poder prestar mais atenção nessa criaturinha que cresce, fervilhante :-)

quarta-feira, 14 de março de 2012

tem, mas acabou

Nove e meia da noite, Rodrigo, curtindo o primeiro exemplar da revista Ciência Hoje das Crianças que recebeu em casa: na seção de matemática, descobre que dá para fazer um truque. Leio para ele o que precisa e ele imediatamente se levanta para reunir o necessário. De pé, uma mãozinha sobre a outra, revê a lista falando:
  • um papel
  • uma caneta
  • uma calculadora
  • um amigo
Bate as mãozinhas e se enfia no quarto para pegar as coisas. "Mas onde você vai encontrar um amigo a essa hora, Rodrigo?", "Sei lá!".
De modo que as cobaias da mágica acabamos sendo nós mesmos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

LENDO (tratar com Rodrigo)

Na nossa rua, tão mudada pelos lançamentos imobiliários dos últimos anos, pipocam placas pelos postes e nas entradas dos edifícios. Rodrigo, agora versão leitor, sai um dia de casa e se espanta: "Vendo? Vendo? Ué, eu tô vendo. Por que o prédio tem que anunciar que está vendo? Tá vendo o quê?".

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Lição de Lógica



Rodrigo está estudando símbolos na escola. E o tema predileto das nossas conversas passou a ser "o infinito", que é claramente "um oito deitado".

Hoje, na hora do almoço, Rodrigo fazendo contas - nos dedos e na cabecinha, que não pára de funcionar: tão intensas essas aprendizagens que, garanto, os pensamentos dele não têm diferença de uma sopa de letrinhas em ebulição...

Dali a pouco, me mostra: três dedos em uma mão, e na outra cinco. "É oito, não é mamãe?", ele pergunta, apenas para ter confirmação. Confirmo. E ele então deita as mãos e me diz, sorrindo da própria esperteza: "agora é infinito". 

Infinito, meu filho, é nosso espanto diante de tanta imaginação e inteligência :-)

Imagem: Fita de Moebius II (Formigas), M. C. Escher

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Rodrigo-Max



Rodrigo há tempos vem lidando com seus monstros e os livros tem sido companheiros fundamentais nesse processo. Primeiro ele encanou com Mamãe virou um monstro. Todas as noites esse era o livro que escolhia para ouvir. E quando eu, tentando explicar a ele sobre meus humores e chateações, fui comentar que às vezes também virava monstra, fui acolhida com imenso carinho pelo meu filhote, que aliviou minha culpa ao contar que também ele, e a irmã mais nova, e o papai viravam monstros.
Mais recentemente, são três os livros de monstros que fazem sucesso. Há o divertido Vai Embora, Grande Monstro Verde, que o Rô conta para si mesmo, sozinho, diversas vezes, feliz e contente com o poder de dizer ao monstro que vá embora e vê-lo partir, pedacinho por pedacinho. Também o maravilhoso Fuja do Garabuja, cheio de poemas deliciosos e ilustrações cheias de fantasia. Mas, sem dúvida, o preferido tem sido  Onde vivem os monstros, talvez até pela comoção em torno do filme.



A gente já lia o livro há um tempo, e estava esperando pelo filme. Porém, a classificação é 10 anos e um amigo querido nos sugeriu que o Rô pode achar o filme muito parado. Então, a gente se diverte vendo o trailer e lembrando os melhores pedaços do livro.
Por tudo isso, quando fiz uma coroa para ele, em parte foi por causa do tema que o grupo dele trabalhou no semestre passado - Princípes e Princesas - e em parte foi também para que ele pudesse seguir fantasiando e elaborando sua relação com os monstros - esses seres fascinantes com os quais nos identificamos, mas ao mesmo tempo tememos; essas partes de nós mesmos que gostaríamos de libertar, mas da qual abrimos mão em nome do aconchego de sermos cuidados e acolhidos.



Ai, filho... Que a gente não acaba nunca de procurar o equilíbrio entre cuidar carinhosamente dos nossos monstros e mantê-los sob controle. A gente não acaba nunca de oscilar entre a vontade de liberdade e a vontade de ter laços.



Que a bagunça monstruosa comece!!!!!!
(E quando você voltar, tenha certeza que o seu jantar quentinho estará esperando por você).

Imagem: Maurice Sendak

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Mais matutinas

6h20 da manhã: escuto Rodrigo dar seus passinhos pela casa para vir se enfiar na nossa cama. Ele vem, deita do meu lado e começa a tagarelar:

- Mãe: sabe o que eu fiz ontem com o papai? Eu apaguei todas as luzes da casa e aí ficou tudo escuro...

Mesmo incapaz de abrir os olhos, não resisto à doçura do pequeno narrador.

- É filho? E vocês ficaram assustados?

Ele continua falando, se esquenta e resolve ir brincar de quebra-cabeças (nova paixão por aqui). Levanto, tomamos café, nos arrumamos para sair. E eu tinha compromisso cedo, então estava de olho no relógio. Como hoje é dia do rodízio e eu estava apressada, resolvemos chamar um táxi ao invés de irmos andando. Liguei num ponto: nada. Liguei em outro: nada. Tornei a ligar no primeiro: nada.

Rodrigo já se animando: - Mamãe, nós vamos ter que ir a pé!

Eu comentei então que estávamos atrasados, e que não daria tempo de andarmos. Ele então, super-macho, encostou a cadeira próximo à janela (tem rede de proteção, gente, calma...) e anunciou:

- Mãe: eu vou olhar daqui de cima, e quando aparecer um táxi a gente vai [mensagem traduzida: fica tranquila, que o homem da casa está aqui para nos proteger] :-)

Por fim, resolvemos caminhar para ver se aparecia algum táxi no caminho. Se não aparecesse.. pra que estressar, né? Iríamos andando mesmo, uai.

Finalmente, depois de três quarteirões encontramos um táxi. Ufa! Aí entramos no táxi e Rodrigo continuou suas observações no trânsito:

- Mãe, eu já sei porque tinha tanta fumaça de manhã [ele estava falando da neblina]: foram esses carros que soltaram.

Quase chegando na escola, ele comenta o brasão de uma associação, que tem uma espada, dizendo que é coisa de cavaleiro. Na mesma frase, comenta a "pesta" que está "naquela placa". Não entendo. Ele repete, falando mais alto. Continuo sem entender. Aí ele reclama:

- Ô mãe. A "pesta" da placa. Você não entende nada!

- Ah! (finalmente compreendo) A seta! Ô filho. Como assim eu não entendo nada? Poxa, eu bem que me esforço...

Vejam que, antes das 8h da manhã, a gente já tinha uma porção de causos pra contar :-)

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Rodrigo, por ele mesmo


Reparem no tamanho do sorriso e no detalhe das perninhas cruzadas ;-)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Gato de Botas



No final de semana passado, quando passamos rapidamente pela cidade na qual fica o sítio de uns amigos, vi que tinha uma coisa que o Rodrigo queria há tempos (nós é que não havíamos ainda encontrado no número dele): galochas!

Perguntamos, tinha o número dele. Os olhos do menino se iluminaram! E quando perguntei se ele queria a vermelha ou a azul, a resposta veio rápida: "A vermelha!".

Ele passou o final de semana inteiro andando pelo sítio, feliz da vida em suas galochas novas. Exploramos o lugar, colhemos quilos e quilos de limão cravo, pegamos alecrim, tomilho e hortelã na horta, vimos os cachorros, patos e galinhas e ainda pescamos peixes na peneira - de tão grande que eles eram, só na base da peneira mesmo ;-) E meu pequeno lenhador, o tempo todo de botas vermelhas.

Domingo à noite voltamos, e o plano fundamental da volta era "mostrar pro meu papai as minhas botas novas".

E na terça, quando fomos levar para uma amiga um pouco dos limões colhidos, tivemos que bater de novo à porta dela porque, na saída, ele fez um bico triste e comentou "ela nem viu as minhas botas"...

De modo que agora, mesmo no sol que anda fazendo, Rodrigo anda de botas. E vocês nem sabem como elas são mágicas: com elas, os pulos são mais altos, os sorrisos mais abertos, as poses muito mais heróicas...



segunda-feira, 8 de junho de 2009

12 de maio de 2008

Fome

Fim-de-semana intenso de visita às mães. No domingo, depois do almoço absurdamente delicioso que minha mãe fez, não resisti e fui cochilar. Quando acordei, me contaram que o Rodrigo disse:
-Estou com foooome...de mamãe!
E quando eu acordei, ele veio correndo e me deu um abraço apertado e um sorriso derrete-gelo.

Meu filho aprendeu a falar de falta. E de desejo.

29 de abril de 2008

As expressões do amor

Meu sangue de pesquisadora não me abandonou nem mesmo durante a gravidez: eu queria saber tudo, conhecer tudo, me preparar da melhor maneira. E foi nessas pesquisas que conheci os carregadores de pano, os slings.

Conheci primeiro os da Bettina, lá do sul. Achei tudo lindo e fiquei animada com a perspectiva de carregar o filhote daquele jeito. Mas o tempo foi voando, o Rodrigo resolveu nascer 3 semanas antes do previsto e eu até ia me esquecendo do tal do sling...

Mas como a necessidade é a melhor amiga das boas idéias, quando o Rô estava com cerca de um mês e eu super cansada, sem conseguir sair de casa (as ruas aqui perto são intransitáveis com carrinhos...), lembrei do sling. E corri procurar uma alternativa mais próxima de SP (leia-se: mais rápida e portanto mais adequada à minha situação de desespero).

Foi então que encontrei a Analy (que naquela época tinha o www.babywearing.com.br) e encomendei um sling, nem me lembro mais de que cor era. Ela ainda havia me prevenido que era melhor ver os tecidos ao vivo...Quando chegamos à slingada, me apaixonei pelo sling vermelho - e o Rodrigo também gostou da novidade. Ficou quietinho, com uns olhões bem abertos prestando atenção em tudo.

(Foi por meio da Analy que eu conheci a Materna e tenho certeza que essa rede de mulheres e mães maravilhosas foi fundamental para a minha experiência de ser mãe. As experiências partilhadas põem em xeque modelos estabelecidos, ampliam o repertório e abrem espaço para que a maternidade seja exercida a partir de um olhar atento aos nossos queridos filhotes - como são, e não como gostaríamos que eles fossem).

Bom. Daí que nunca mais paramos de andar de sling, né? Rodrigo estava com cólicas? Era colocá-lo sentado no sling, que tudo se resolvia; o problema era agitação? lá ia o menino para o sling passear pelo bairro; a mãe é que estava estressada? passeio na gente que em meia quadra caminhada tudo ficava mais tranqüilo... O Edu também adorava caminhar com o serzinho penduradinho.

Quando ele começou a comer frutas, íamos ao CEASA e o Rodrigo era a sensação dos vendedores. Vez em quando aparecia alguém para perguntar se ele não estava apertado, machucado etc. Mas em geral as pessoas se encantavam. Porque a segurança que o Rô sentia transparecia na carinha dele, na simpatia para com as pessoas...Pena que não temos foto dele sentado no sling, feliz da vida, comendo melancia (ou banana ou pêra ou mexerica já que ele ganhava pedaço de tudo quanto era fruta).

Ele está pesado para usar o sling agora. Mas isso não significa que tenhamos deixado de carregá-lo. Porque quando as costas começaram a reclamar, compramos um mei-tai (que está na foto). Cansei de fazer comida com ele amarrado nas costas. Às vezes ele estava com sono, mas não queria dormir, então eu o colocava nas costas e, mal começava a cozinhar, ele já estava dormindo.

Hoje usamos mais para passear e mais na frente (ele diz que tem medo de cair das costas). O fato é que ainda é muito gostoso carregá-lo pertinho de mim. No mei-tai, parece que estamos num abraço sem pressa e sem fim. Ele se aconchega e só vai curtindo a paisagem.

Não acho que colo e carinho des-eduquem ou deixem mal acostumado. Não mesmo. As crianças têm necessidades diferentes e o Rô desde pequeno exigia muito contato físico e proximidade com a gente. Se não fosse o sling, acho que teríamos pirado. O sling, assim, tornou possível dar a ele toda a proximidade que ele pedia sem que para isso tivéssemos que abrir mão de tudo e focar apenas nele. Porque a atenção de que ele precisava não tinha a ver com o olhar, o falar...Tinha a ver com pele, com o cheiro, com os ritmos do corpo.

Numa viagem para Londrina, perdemos o sling vermelho. Fiquei tão triste. Porque era um pano que embalara sonos, sonhos, descobertas e é como se parte dos primeiros anos do Rô tivesse ficado impresso nele, nas marcas, manchas e cheiros.

Fazer o quê? O mais importante, acredito, está impresso na memória e no corpo do Rodrigo. Um lugar-tempo de conforto ao qual ele sempre poderá voltar durante a vida.

21 de abril de 2008

A paixão de conhecer o mundo


Feriados prolongados com chuva, frio e criança pequena podem ser bem cansativos. Ainda mais se a criança em questão saiu de uma doença chatinha que a deixou cheia de açucar e mimos...
Mas por outro lado, essa convivência mais intensiva é tão gostosa. Especialmente porque dá para acompanhar nas coisas mais pequenininhas o quanto o está crescendo.

O título do post é o nome de um livro da Madalena Freire. Eu li pela primeira vez há mais de doze anos, enquanto fazia magistério, e fiquei encantada. Para mim, moça do interior, que lidava com uma realidade completamente diferente nos meus estágios, foi uma grande alegria conhecer de maneira tão concreta outra maneira de educar, ainda mais crianças tão pequeninas.
E o termo que ela usa "paixão de conhecer o mundo" ficou sendo para mim o jeito mais preciso de dizer da relação com o conhecimento que uma escola deveria ser capaz de despertar em seus alunos.

O tempo passou e eu nunca cheguei a trabalhar com educação infantil. Logo que tinha terminado o magistério, não me sentia nem um pouco segura para trabalhar com criança pequena, mesmo tendo certeza que eles aprendem "apesar" da gente. Para mim, esses momentos tão fundamentais (As Etapas Decisivas da Infância, de que fala a Françoise Dolto) tinham que ser vividos junto a professores mais experientes e não junto a uma moleca de 18 anos, sem maturidade, sem repertório...

Mas a vida dá voltas e quando já estava quase terminando a faculdade, o primeiro trabalho que fui fazer foi de educação - educação no trabalho, com cooperados de uma cooperativa cheia de ambigüidades, num intenso processo vivido com mais 7 pessoas maravilhosas e sob supervisão da Fátima Freire Dowbor. Daquelas experiências transformadoras, que certamente ecoa até hoje na minha prática e reflexão. E uma experiência que também me ajudou a refazer meus laços com a educação, com essa responsabilidade tão imensa de conduzir um processo junto com um grupo de pessoas (crianças ou não).

Depois que o Rodrigo nasceu, passei para o outro lado da escola - não mais como educadora, mas como mãe. O Rodrigo ficou em um berçário dos quatro meses até pouco mais de um ano. Quando ele começou a se mover, a compreender melhor as coisas, resolvemos mudá-lo de escola. O berçário em que ele estava tinha umas coisas - comuns em grande parte das escolas infantis, mas que mesmo assim - me incomodavam. As principais eram deixar que as crianças chamassem as professoras de tia e colocar Xuxa para as crianças ouvirem. O Edu diz que é chatice minha, mas eu lia essas coisas como indicadores de que se tratava de uma prática sem reflexão. E como raios prática sem reflexão poderia levar à paixão de conhecer o mundo?

Procuramos algumas escolas e, por sorte, encontramos uma bem pertinho, que tinha um espaço amplo e gostoso e profissionais bem preparados. Foi a melhor coisa que fizemos, mudar o para essa escola.

No ano passado, que o estava no G1, a gente já percebia como o gostava e se encantava com as coisas que ia aprendendo. Tão pequenininho e ele se envolvia com os temas, as histórias, as brincadeiras...E esse ano, em que ele já fala pelos cotovelos, dá para perceber como o experimentar nessa fase se liga à imitação, ao esforço de compreender as sensações do outro, os significados do que se diz e como se diz. Acho um barato.

Porque de um lado tem essa descoberta das sensações e sentimentos - e aí o trabalho nosso e da escola de ajudá-lo a nomear essas coisas - e tem a descoberta do próprio mundo - as músicas, brincadeiras, bichos, livros, linguagens. É tão bacana. Em vários momentos me pego boquiaberta diante desse olhar curioso que ele tem para a vida. É claro que é coisa de criança, mas para mim também é clara a influência que a escola e as pessoas que nela estão tem para a maneira com que isso se expressa. Olho pro e sinto que ele é livre, que ele já tem algumas ferramentas para se colocar no mundo: ele já está no mundo. E me leva pela mão com ele, para eu ensiná-lo, para ele me ensinar.

O que mais pode querer uma mãe?

Fonte da imagem: http://jardimdaalegria.blogspot.com/2007/03/educao-infantil-artes-pequenos-artistas.html

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Solução avançada de problemas

As crianças de hoje são tão espertas que eu costumo chamar o Rodrigo de "solução-avançada-de-problemas" (igual à mensagem que aparece quando o Windows tá começando, sabem? "aperte F-alguma coisa para solução avançada etc." Não sei porque, acho muito boa essa frase e acho que se aplica perfeitamente às capacidades dessas pessoinhas...).

Enfim. Fato é que Rodrigo é filho de mãe natureba e vegetariana e pai com um pé na junkie food. Então, ontem no lanche tinha hambúrguer de soja e orégano e também salsichas. O que o menino fez? Montou um sanduíche em pão de hambúrger recheado com...hambúrguer de soja & salsichas. Ao mesmo tempo. E pôs catchup em tudo.

Sem crise, sem esquizofrenia... Embora, para minha tristeza, ele só tenha comido as salsichas :-( e eu juro que é um hambúrguer de soja bem gostoso.

Imagem: www.gettyimages.com.br

sábado, 25 de abril de 2009

O mundo

Na hora de dormir, Rodrigo me pediu para ir fazer companhia para ele no quarto. Fomos eu e meu livro, que li uns cinco minutos porque o menino rodou, girou, "fritou", e então pediu para eu cantar "a música do boi-boi-boi". Cantei (ou cantamos, já que ele também cantou).

Acabei essa e cantei "Meu neném" (do Palavra Cantada). E depois ainda cantei "Minha Canção" (dos Saltimbancos). Pra terminar, contei de quando ele era pequenininho, e depois de dar mamá pra ele, eu ficava um tempão com ele no colo, cantando "Valsa para uma menininha", do Toquinho, embora eu cantasse menininho e, quando ele ainda estava na barriga, substituísse o "não cresça mais não" por um "cresça bastantão" :-)

Comecei a cantar e quando chegou na segunda estrofe, em que a música diz:

Fique assim, fique assim sem crescer
Porque o mundo é ruim, é ruim e você...

Rodrigo me interrompeu:
- Mas mãe, o mundo não é ruim.

E eu concordei, "é, filho, não é".

Mas me deu vontade de continuar a cantar a música e explicar que, de vez em quando, o mundo parece sim ruim; talvez de vez em quando, ele até seja de fato. Quando a gente se desilude, quando a gente desacredita, quando a gente se desespera e só tem espaço pro bicho-papão.

Que bom, Rô, que pra você, pelo menos por enquanto, a vida é bem mais do que o bicho-papão. Que bom, filho, que mesmo com essa correria de ultimamente, essa tese que nunca termina, você sabe que o mundo é bom. Ou bão.