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domingo, 9 de maio de 2010

Diálogos


 Ontem, Rodrigo tomando o sorvete de algodão-doce mais azul que já vi na vida:
- Mãe, sabe como eles fizeram esse sorvete?
- Como, filho?
- Eles estenderam a mão lá no alto e pegaram as nuvens para misturar e deixar gelado.
- É mesmo? Acho que eles também pegaram um pouco de céu, por isso é que ficou azul.
- É! E aí misturaram bem.

Hoje, conversando sobre o Dia das Mães:
- Mãe, você comprou algum presente para você, pra você abrir hoje?
- Sim, filho, é que não chegou.
- Mãe, sabe o que eu vou querer?
- ?
- Quando for Dia dos Filhos?

Imagem: daqui.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

10 de julho de 2008

Alquimia

Saldo da manhã:

- um bolo de chocolate
- pão integral feito em casa
- suflê de espinafre
- casa com cheirinho de comida
- mãos e corações quentinhos
- filhote dormindo depois de tudo esparramado e feliz.

2 de julho de 2008

Coração Roubado

Como ainda na segunda o Rô estava de febre, hoje fomos levá-lo na médica. Depois da consulta, fomos caminhando até a farmácia homeopática, para já mandar fazer o remédio dele.

No caminho, Rodrigo arrancou uma folhinha que estava sob a pintura de um muro. Olhou e exclamou: "- Olha, mãe! É um coração!". E colocou a folha sobre o coração, todo lindo.

Aí resolveu guardar para não perder a folha e percebeu que seu bolso era pouco confiável. Disse a ele que guardaria na minha bolsa, já pegando a folha. Pra quê? O menino ficou bravo.

- "Mãe, você roubou meu coração!"

Roubei...Mas se roubei, Rodrigo, foi porque, foi porque te quero bem.

5 de junho de 2008

Mãe Monstro


Rodrigo parece estar descobrindo a raiva: reclama quando é contrariado, tenta bater e chutar, atira as coisas ao longe. Uma delícia... A gente às vezes briga, às vezes põe de castigo (não ele, mas o filme predileto, o brinquedo querido), às vezes tenta conversar com ele a ajudá-lo a entender o que está acontecendo.

De umas semanas para cá, ele cismou com a história Quando Mamãe virou um Monstro (Joanna Harrison, BrinqueBook).

Pede para contar várias vezes e, depois que terminamos, começa a contar ele mesmo, com ênfase nos detalhes mais deliciosos: - E então...ela soltava fumaça, e fogo e um urro terrííível...E ele adora a parte em que ela esquece de tirar o cabelo de monstro e quase atende a porta toda descabelada.

Um dia, enquanto lia, comentei que de vez em quando eu também virava um monstro. Ao que ele, em toda a sua sabedoria, respondeu: - Eu também virei, mamãe! E o papai, e a Júlia e a Bia...

Moral da história: todo mundo de vez em quando vira monstro. Com pés, orelha, cabelo e rabão.

Hoje de manhã, eu ainda estava de pijamas, toda descabelada. E Rodrigo achou um pente. Foi então que ele teve uma idéia super carinhosa: - Vem aqui, mamãe, que eu vou pentear o seu cabelo de monstro.

Bem penteada, fiquei um pouquinho menos monstra.


Imagem: http://www.weno.com.br/blog/archives/2007_02.html

10 de maio de 2008

A vida é tão bonita


"A vida é tão bonita, basta um beijo e a delicada engrenagem movimenta-se, Uma necessidade cósmica nos protege".

(Adélia Prado)

Foi outro dia, numa conversa com o Mauricio, que percebi: a minha gravidez e o parto do Rodrigo foram minha travessia, minha aprendizagem dos prazeres. Fico cada vez mais radical, no sentido de me aproximar cada vez mais das minhas raízes, do que de fato me faz sentir viva, com sangue/seiva correndo nas veias.

É como se uma porta tivesse sido aberta: talvez porque é difícil ser mãe sem se desdobrar, desdobraram-se em mim outras formas de ser mulher, de ser pessoa, de experimentar a vida, de ser corpo e de ser alma.

Acho que foi com o Rô que redescobri como a vida é bonita. Levando-o ao teatro, cantando canções antigas (como "Minha Canção", dos Saltimbancos) e descobrindo com ele canções novas (como "Só quero ver", do Palavra Cantada), contando para ele histórias que tanto significam para mim (como Chapeuzinho Amarelo, do Chico Buarque) e contando também histórias que passaram a significar para nós (como Raimundo e a Menor Banda do Mundo, do Sérgio Serrano).

É impressionante como a gente pode ir deixando de lado as coisas que ama - eu adoro teatro, literatura, música... Mas só quando o Rô nasceu é que me dei conta de que tinha largado mão de tantas coisas que tinham tanto a ver com quem sou, do que gosto.

Logo que ele nasceu e me olhou com seus olhos de curiosidade e reconhecimento e, depois disso, todas as vezes que ele me olha tentando entender o mundo, me vejo obrigada a reconhecer quem eu sou e o que é o mundo para mim.

Nas peças que íamos ver, eu ficava tão maravilhada quanto ele com as cenas, as delicadezas, as surpresas de cor e som. Nos shows - mesmo os em DVD, como do Palavra Cantada e da Adriana Partimpim - a gente ia descobrindo juntos um trechinho novo de música, uma cara nova, um instrumento novo. E as histórias, são sempre uma delícia, de tempos em tempos ele cisma com uma diferente e aí é um contar e recontar até ele mesmo ser capaz de reproduzir a história, com as minhas próprias caras e bocas, guardando melhor os trechos que para ele significam mais.

E a cada momento desses, eu sei: a vida é tão bonita.

Não tem nada a ver com uma negação da realidade, como no filme "A vida é bela"; não é preciso mascarar a realidade, nem enfeitá-la, nem torcê-la até que pareça que estamos vivendo no interior de uma ficção. Sem comerciais de margarina, please.

(Sou muito mais a franqueza da Dora, de Central do Brasil, dizendo pro menino que sua mãe não vai mais voltar).

Acho que é mais uma coisa meio drummondiana, tipo a flor que nasce no asfalto. O bonito é que mesmo em tanta dureza, feiúra, maldade, dor, nasçam flores. Nasça uma cena que arrepia; um texto que leva às lágrimas; uma música que transforma tudo o mais em silêncio; uma textura que surpreende e encanta. A vida é bonita porque nesse leve assombro que nos entreabre a boca, as margens da vida se ampliam um pouco e a esperança volta a ser possível.

Antes do Rodrigo, acho até que eu era feliz. Mas depois dele, sou muito mais intensa, muito mais corpo, muito mais alma, muito mais leonina: muito mais humana. Sofro mais, gozo mais. O açucar é mais doce e o sal mais salgado.

E eu adoro.

Imagem: Marc Chagall, Springtime in the meadow, 1961
Fonte: http://www.weinstein.com/chagall/marc-chagall.html

29 de abril de 2008

As expressões do amor

Meu sangue de pesquisadora não me abandonou nem mesmo durante a gravidez: eu queria saber tudo, conhecer tudo, me preparar da melhor maneira. E foi nessas pesquisas que conheci os carregadores de pano, os slings.

Conheci primeiro os da Bettina, lá do sul. Achei tudo lindo e fiquei animada com a perspectiva de carregar o filhote daquele jeito. Mas o tempo foi voando, o Rodrigo resolveu nascer 3 semanas antes do previsto e eu até ia me esquecendo do tal do sling...

Mas como a necessidade é a melhor amiga das boas idéias, quando o Rô estava com cerca de um mês e eu super cansada, sem conseguir sair de casa (as ruas aqui perto são intransitáveis com carrinhos...), lembrei do sling. E corri procurar uma alternativa mais próxima de SP (leia-se: mais rápida e portanto mais adequada à minha situação de desespero).

Foi então que encontrei a Analy (que naquela época tinha o www.babywearing.com.br) e encomendei um sling, nem me lembro mais de que cor era. Ela ainda havia me prevenido que era melhor ver os tecidos ao vivo...Quando chegamos à slingada, me apaixonei pelo sling vermelho - e o Rodrigo também gostou da novidade. Ficou quietinho, com uns olhões bem abertos prestando atenção em tudo.

(Foi por meio da Analy que eu conheci a Materna e tenho certeza que essa rede de mulheres e mães maravilhosas foi fundamental para a minha experiência de ser mãe. As experiências partilhadas põem em xeque modelos estabelecidos, ampliam o repertório e abrem espaço para que a maternidade seja exercida a partir de um olhar atento aos nossos queridos filhotes - como são, e não como gostaríamos que eles fossem).

Bom. Daí que nunca mais paramos de andar de sling, né? Rodrigo estava com cólicas? Era colocá-lo sentado no sling, que tudo se resolvia; o problema era agitação? lá ia o menino para o sling passear pelo bairro; a mãe é que estava estressada? passeio na gente que em meia quadra caminhada tudo ficava mais tranqüilo... O Edu também adorava caminhar com o serzinho penduradinho.

Quando ele começou a comer frutas, íamos ao CEASA e o Rodrigo era a sensação dos vendedores. Vez em quando aparecia alguém para perguntar se ele não estava apertado, machucado etc. Mas em geral as pessoas se encantavam. Porque a segurança que o Rô sentia transparecia na carinha dele, na simpatia para com as pessoas...Pena que não temos foto dele sentado no sling, feliz da vida, comendo melancia (ou banana ou pêra ou mexerica já que ele ganhava pedaço de tudo quanto era fruta).

Ele está pesado para usar o sling agora. Mas isso não significa que tenhamos deixado de carregá-lo. Porque quando as costas começaram a reclamar, compramos um mei-tai (que está na foto). Cansei de fazer comida com ele amarrado nas costas. Às vezes ele estava com sono, mas não queria dormir, então eu o colocava nas costas e, mal começava a cozinhar, ele já estava dormindo.

Hoje usamos mais para passear e mais na frente (ele diz que tem medo de cair das costas). O fato é que ainda é muito gostoso carregá-lo pertinho de mim. No mei-tai, parece que estamos num abraço sem pressa e sem fim. Ele se aconchega e só vai curtindo a paisagem.

Não acho que colo e carinho des-eduquem ou deixem mal acostumado. Não mesmo. As crianças têm necessidades diferentes e o Rô desde pequeno exigia muito contato físico e proximidade com a gente. Se não fosse o sling, acho que teríamos pirado. O sling, assim, tornou possível dar a ele toda a proximidade que ele pedia sem que para isso tivéssemos que abrir mão de tudo e focar apenas nele. Porque a atenção de que ele precisava não tinha a ver com o olhar, o falar...Tinha a ver com pele, com o cheiro, com os ritmos do corpo.

Numa viagem para Londrina, perdemos o sling vermelho. Fiquei tão triste. Porque era um pano que embalara sonos, sonhos, descobertas e é como se parte dos primeiros anos do Rô tivesse ficado impresso nele, nas marcas, manchas e cheiros.

Fazer o quê? O mais importante, acredito, está impresso na memória e no corpo do Rodrigo. Um lugar-tempo de conforto ao qual ele sempre poderá voltar durante a vida.

25 de abril de 2008

Estrelas da manhã

Rodrigo acordou às 7h e me chamou. Fui lá falar com ele, que estava ainda meio com preguiça, me viu, pegou o Amigão e se esparramou na cama.
Quando finalmente despertou, pediu para tirar o macacão-cobertor que vai por cima de tudo. E se espantou com as meias.

- Olha, mamãe. A minha meia. São iguais.
- É filho, um par.
- Tem estrelinhas.
- É mesmo, Rô.
- A sua não tem estrelinhas.
- Não, filho. A minha não tem.
- Quando você crescer, você vai poder ter meias de estrelinha, mãe.
Oba! Não vejo a hora...

E para a sexta-feira ser bonita, uma canção deliciosa do Luiz Vieira, Prelúdio para ninar gente grande. Beijos e bom fim de semana!

Quando estou
nos braços teus,
sinto o mundo
bocejar...
Quando estás nos braços meus,
sinto a vida descansar.
No calor do teu carinho
sou menino-passarinho
com vontade de voar...
Sou menino-passarinho
com vontade de voar.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Versão Férias


São tantas, que nem estou dando conta de registrar (mesmo que mentalmente). Vamos ver se consigo pelo menos algumas.

Rodrigo ganhou o tão esperado Buzz Lightyear de Natal e também uma fantasia de Batman que já aprendeu a andar sozinha! Fomos para um hotel, com minha mãe, meu padrasto, minha irmã, meu cunhado, meus sobrinhos, e nós cinco aqui. To-dos os dias o Rodrigo se vestiu de Batman. Só tirava a fantasia para ir nadar :-)

Quando ele abriu o presente (dado pela vó Lúcia e o tio Fábio), ficou feliz da vida! E já colocou a fantasia. Depois de muito voar pelo corredor e na frente do espelho (para ver a capa flutuar...), veio comentar comigo que a fantasia era de manga curta (a do Homem-aranha é de manga e perna compridas). Disse que sim, e que por isso mesmo ele poderia usá-la para ir à escola em dias quentes. Ele deu o sorriso mais querido do mundo, bateu palmas e gritou: "êêêêêê!"

Lá no hotel, ele e o primo aprontaram bastante. Numa das vezes, fui dar bronca:
- Rô, agora chega!
- Mas mãe, eu já cheguei!

Em outra, pedi para eles ficarem dentro do restaurante enquanto terminávamos de jantar:
- vocês dois, podem entrar já!
- mas, mãe, a gente quer brincar porque ontem a gente não brincou (de fato, no dia anterior estava chovendo)...
Pode?

Num café da manhã, ele veio no caminho do quarto ao restaurante me contando a história da "mussalela". E eu, sem entender nada, né? Estava lá, terminando o café, e ele me chamou:
- vem, mãe, vem ver a "mussalela"
Lá fui eu. Aí, ele aponta um inseto no chão e mostra:
- tá vendo, mãe? a "mussalela"? Ela tá morrida. Os tios morreram ela.
De fato, lá estava, morta, uma...libélula. Nunca que eu ia adivinhar!

Na última noite, ele saiu do salão para encontrar o primo e o avô e, não os encontrando, resolveu ir na direção dos quartos. Para isso, ele subiu um escada bem alta (sozinho. me arrepio só de pensar). Sorte que a irmã dele estava lendo do lado de fora do quarto e o viu:
- Rô, onde você vai?
- Vou encontrar o vovô.
Ela o levou até o quarto dele, mas ninguém estava lá. Então ela se lembrou:
- Rô, o vovô não estava lá embaixo?
À medida em que se aproximavam do salão, a Bia ouviu um monte de gente gritando: "Rodriiigo. Rodrigooo!". O ser tinha fugido.
Descendo as escadas para encontrar finalmente o avô, a Bia recomendou:
- não pode descer sozinho, né?
- não tem "ploblema", Bia, eu seguro no "pedalão" (mais conhecido como corrimão).

Nessa mesma noite, no meio da bagunça e depois do susto da fuga, olhei para ele tão bonito e feliz do meu lado, comendo sorvete de chocolate, e disse:
- eu amo você, sabia?
E ele sorriu bonito, me dizendo no mesmo tom:
- e eu amo você :-)

Agora há pouco, eu arrumando as malas para visitarmos a bisa, escutei uma falação:
- e aí você põe a cola, e espera secar, tá? E então, dobra assim e aí espera um pouquinho...
Isso tudo enquanto mexia em papéis, lápis etc. Só então atinei: era o Rô, Mr. Maker, em carne e osso!

Imagem: http://gamesxxx.wordpress.com/2008/08/13/novo-game-do-batman-e-anunciado/